Bolhas sociais.

Crenças nos permitem usar o passado pra entender o presente e tomar decisões de forma mais eficiente. Elas influenciam o que você nota, deixa de notar e o que entende da realidade à sua volta. Você desenvolve várias crenças ao longo da vida para organizar as suas impressões e conhecimentos a respeito das coisas.

Que coisas?

A sua visão de si mesmo, dos seus amigos, de como o mundo funciona e de como você deve se comportar em certas situações, por exemplo. As crenças são importantes porque influenciam o que você capta das situações, como você as interpreta e do que você poderá se lembrar depois. Elas funcionam como filtros que te ajudam a lidar com ambiguidades e a interpretar a realidade de forma mais rápida. A cultura na qual você vive exerce uma grande influência nas crenças dos seus cuidadores e eles, por sua vez, exercem uma grande influência nas suas crenças. Se você tivesse nascido em outro lugar ou tido outros cuidadores, suas crenças poderiam ser bem diferentes. Os cuidadores fazem isso tanto por meio da instrução direta quanto determinando os ambientes que você frequentará como a creche, escola ou igreja onde você poderá interagir com outras pessoas que também influenciarão suas crenças. As crenças têm uma enorme utlidade social, já que nos ajudam a lembrar que pessoas são legais, chatas, desleais, agressivas ou inteligentes. Esse é um tipo de conhecimento que pode te ajudar a evitar muitos aborrecimentos. É muito mais fácil botar uma crença dentro da sua cabeça do que mudar. Ela vai ficando cada vez mais forte conforme você desenvolve ou conhece novas justificativas que a apoiam. O que algumas pesquisas mostraram é que  evidências  muito mais convincentes podem ser necessárias para mudar uma crença do que para criá-la. Isso tem a ver com um fenômeno conhecido como perseverança da crença. Ela é a tendência de crenças se tornarem imunes à informações contraditórias uma vez que tenham sido criadas e justificadas. Em um estudo, os cientistas analisaram como as pessoas de alguns países reagiriam à retratação de notícias sobre a guerra do Iraque de 2003. Durante essa guerra, muitas informações divulgadas pela mídia acabaram sendo corrigidas ou desconfirmadas depois. Por exemplo, uma notícia de que tropas iraquianas executaram prisioneiros de guerra acabou se mostrando falsa posteriormente. Os cientistas observaram que norte-americanos tenderam a preservar suas crenças mesmo em notícias que se mostraram imprecisas depois, enquanto que alemães tiveram uma tendência maior de atualizar suas crenças diante das correções. A Alemanha era contrária à guerra do Iraque enquanto que boa parte dos norte-americanos apoiava a iniciativa. Procurando ajuda? Clique aqui.

Ao que tudo indica, as crenças prévias dos participantes de cada país influenciaram no quanto eles eram capazes de mudá-las diante de novas informações. Uma das razões pelas quais é difícil mudar de crença tem a ver com a dissonância cognitiva. Se você se vê como alguém sensato, então pode ser desconfortável aceitar que acreditou em algo que estava errado. Muita gente vai preferir proteger a autoestima se apegando a justificativas convenientes. O descobridor da dissonância cognitiva, Leon Festinger, observou isso acontecendo com pessoas que acreditavam que o mundo ia acabar em uma data específica. Quando a profecia falhava, surgia todo tipo de justificativa criativa para manter a crença viva, como pensar que o fim do mundo havia sido adiado para outra data. As redes sociais e ferramentas de busca podem piorar ainda mais as coisas por meio das customizações que oferecem e dos algoritmos que usam para distribuir conteúdo. Elas acabam alimentando ainda mais a nossa tendência de criar bolhas que filtram as informações à nossa volta. Quando você exclui ou para de seguir alguém que pensa diferente de você em uma rede social como o Facebook, você está filtrando o que vai aparecer pra você no futuro em uma direção coerente com as suas crenças e preferências já estabelecidas. Os algoritmos usados por redes sociais e ferramentas de busca podem analisar o que mais te interessa com base nas suas interações com os conteúdos e te mostrar depois mais conteúdos que possam te prender por mais tempo dentro da rede. Com isso você vai sendo exposto a cada vez mais justificativas para as suas crenças e pode se tornar menos tolerante com alguém que pensa diferente.

Por isso, cuidado com o que a internet anda fazendo silenciosamente com o seu cérebro.
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