Correlação Serotonina x Depressão.

Se você for a um psiquiatra falando que anda triste ou desanimado, as chances são grandes de você ouvir algo sobre depressão e sobre como você está assim por causa de um desiquilíbrio químico de serotonina no seu cérebro. Mas será que isso é verdade? Diferente do que muitos pensam, a relação causal entre serotonina e depressão está longe de ser bem resolvida na ciência. Essa ideia sobre a depressão, que ficou conhecida como a hipótese da serotonina, foi desenvolvida há cerca de 50 anos. Os primeiros antidepressivos, tais como os antidepressivos tricíclicos e os inibidores da monaminooxidase, foram descobertos por acaso nessa época enquanto eram testados para tratar outras condições médicas. Os pesquisadores perceberam que o humor das pessoas melhorava de forma inesperada depois de consumí-los. Esses medicamentos tinham diferentes efeitos no organismo, mas um desses efeitos era inibir a recaptação de serotonina pelos neurônios, além de afetar também os níveis de norepinefrina, por exemplo.




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Novos medicamentos tendo a serotonina como alvo, tais como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, foram desenvolvidos e, conforme eles foram demonstrando efeitos em muitos pacientes, a hipótese da serotonina foi ganhando maior aceitação. Atualmente, sabemos que a hipótese da serotonina deixa muito a desejar. Se o problema na depressão fosse só uma deficiência de serotonina, bastaria mudar isso para ficar tudo bem. Na prática, os antidepressivos não funcionam com uma boa parte das pessoas. E mesmo quando eles funcionam, o aumento de serotonina deveria ter um efeito imediato, mas não tem.

Na verdade pode levar mais de um mês até que ocorram efeitos no humor, o que também não é coerente com a hipótese da serotonina. A princípio, uma diminuição de serotonina deveria ser capaz de induzir alguém à sintomas depressivos. Também deveriamos conseguir identificar níveis baixos de serotonina no cérebro de alguém com depressão. Sabe o que as pesquisas  averiguando essas possibilidades constataram? Que níveis reduzidos de serotonina podem alterar o humor de alguns, mas não o de outros, e que pessoas com depressão não exibem níveis baixos de serotonina necessariamente. Não existe nenhuma demonstração clara da existência de um equilíbrio químico ideal de serotonina no cérebro ou de um desequilíbrio que seria patológico. Mas então como é que os antidepressivos funcionam para algumas pessoas? Não temos certeza, mas uma possibilidade tem a ver com outros efeitos conhecidos desses medicamentos. Alguns deles aumentam a neurogênese no hipocampo, uma região que, como falamos em outro vídeo, parece ter um papel importante na depressão. Existem algumas pesquisas apoiando a ideia de que o efeito demorado dos antidepressivos pode ser um resultado do tempo necessário para que ocorra a neurogênese e essa sim pode causar um impacto considerável no humor. Embora a deficiência de serotonina possa exibir alguma relação com a depressão, correlação não é a mesma coisa que causação. A pesquisa científica indica que a deficiência de serotonina não é necessária e nem suficiente para que alguém desenvolva a depressão. O que parece mais provável é que a depressão possa ser causada por vários fatores em diferentes níveis de análise. Embora mudanças no cérebro possam fazer parte de uma explicação mais completa da depressão, também é necessário levar em conta outros fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. A hipótese da serotonina, além de imprecisa, pode ser prejudicial para a população. Isso porque muitos profissionais da saúde acreditam que ela seja uma verdade absoluta e assim podem achar que só medicamentos vão resolver. Isso pode levá-los a desvalorizar ou até mesmo a serem contra outras opções de tratamento como a psicoterapia, por exemplo. O problema é que antidepressivos não são o suficiente em vários casos que a psicoterapia poderia ajudar pra caramba. O resultado é que, por uma falta de conhecimento científico de muitos psiquiatras, seus pacientes podem se prejudicar ao acreditarem que os seus problemas se resumem a um desequilíbrio químico que só pode ser resolvido com medicamentos. Medicamentos podem sim ser úteis sob certas condições, mas outras opções provavelmente seriam mais benéficas para muitas pessoas.